Prefeitura quer permitir prédios no Buraco do Lume


Postado: 11/09/2019

Uma polêmica urbanística envolve o futuro do Buraco do Lume (ou, pelos registros oficiais, a Praça Mário Lago), na Avenida Nilo Peçanha. Boa parte do espaço é, na realidade, uma área privada, que até hoje está aberta ao público devido a regras rígidas para novos empreendimentos naquele trecho do Centro. Mas, agora, seu destino está nas mãos da Câmara Municipal. O prefeito Marcelo Crivella enviou para o Legislativo, na semana passada, um projeto que restaura os parâmetros que vigoraram até 1986 e permitiam prédios de 20 andares ou mais no local.

Crivella tomou a iniciativa um mês depois de o terreno de 2.500 metros quadrados, que pertencia a uma empresa associada à Bradesco Seguros, ser vendido durante um leilão em São Paulo. O negócio foi fechado por R$ 8,4 milhões e teve um único candidato. Tanto o leiloeiro quanto o banco não revelam o nome do comprador, alegando sigilo. No 7º Registro Geral de Imóveis no Rio, a área permanece em nome da Trenton Empreendimentos e Participações, que tem a Bradesco como sócia. Procuradas, as empresas não quiseram se pronunciar. Por falta de áreas livres no Centro, o mercado imobiliário estima que o terreno tem potencial para gerar cerca de R$ 800 milhões coma venda de lajes comerciais, caso as regras mudem.

Na mensagem enviada à Câmara, Crivella defende que o terreno cumprirá sua função social se for derrubada a restrição que “vincula sua utilização unicamente para a implantação de equipamentos destinados a atividades culturais, em verdadeira dessintonia coma prima ziada realidade”. A limitação foi imposta por decreto do ex-prefeito Saturnino Braga.

O projeto de lei não passou por uma análise de técnicos da Secretaria municipal de Urbanismo. Procurada, a pasta orientou O GLOBO a entrar em contato com o gabinete do prefeito. Ailton Cardoso da Silva, secretário especial que responde diretamente a Crivella e articulou o envio do projeto ao Legislativo, não quis dar entrevista.

A iniciativa da prefeitura já provoca críticas de especialistas. Ex-secretário municipal de Urbanismo, o arquiteto Augusto Ivan destacou que o terreno fica no entorno do Corredor Cultural, onde há dezenas de imóveis de interesse histórico. Segundo ele, o Lume tem um papel semelhante ao do Largo da Carioca na integração urbana do Centro:

— Essa proposta da prefeitura é uma agressão à cidade.

Para a arquiteta Andrea Redondo, que também foi secretária municipal de Urbanismo, a prefeitura deveria estimular a ocupação da Zona Portuária, onde foram feitos investimentos maciços nos últimos anos.

— O Buraco do Lume é uma espécie de “respiro” em uma área excessivamente urbanizada. A cidade, que anda muito maltratada, não ganharia nada com essa mudança — disse Andrea.

LOCAL É TOMBADO

O presidente da Sociedade de Amigos da Rua da Carioca (Sarca), Ênio Bittencourt, lembrou que, na década de 1980, houve uma série de protestos para que o Buraco do Lume fosse protegido:

— Aquela área ainda merece ser conservada. Não faz sentido construir mais prédios no Centro quando há tantas salas comerciais vazias.

Mesmo se o projeto for aprovado, o comprador do terreno pode ter problemas para viabilizar qualquer negócio. No próprio edital, o leiloeiro destacou que há divergências em relação à área do imóvel na prefeitura e no Registro de Imóveis. Além disso, em 1989, o Buraco do Lume foi tombado por uma lei municipal. Além disso, ontem à tarde, o presidente da Assembleia Legislativa, André Ceciliano (PT), decidiu apresentar um projeto para tombar o espaço no âmbito estadual.

Reduto de manifestações de partidos de esquerda, o Buraco do Lume ganhou este nome na década de 1950, quando a empresa Lume Empresarial, que havia comprado vários terrenos na região, faliu e abandonou uma área escavada para as fundações de uma garagem. Ali, surgiu a praça.

Fonte: O Globo